Sarna em cães e gatos: sintomas, tratamento e prevenção
Poucas palavras do vocabulário pet carregam tanto engano quanto "sarna". O cachorro sem pelo em volta dos olhos é sarna. O vira-lata da rua, pelado e com a pele engrossada, é sarna. O gato balançando a cabeça com cerume escuro na orelha é sarna. Em todos esses casos o tutor pode estar certo, e mesmo assim estar falando de três doenças diferentes, causadas por ácaros diferentes, com tratamentos que não se substituem.
Essa confusão tem custo. Quem trata uma demodicose como se fosse sarcóptica não investiga a causa de fundo. Quem trata uma sarcóptica como se fosse alergia enche o animal de corticoide e devolve para casa um cão que segue espalhando ácaro pela família inteira. E quem resolve sozinho com receita de internet chega à clínica semanas depois, com a pele queimada e o quadro original intacto.
Antes de seguir, vale a ressalva que acompanha todo conteúdo de saúde aqui: este texto é informativo e não substitui a consulta veterinária. Coceira e queda de pelo têm dezenas de causas possíveis, e só o médico-veterinário, com exame e raspado de pele, consegue dizer qual delas está em jogo.
Resposta rápida: sarna é o nome popular de um grupo de doenças de pele causadas por ácaros microscópicos. Em cães, as duas principais são a sarcóptica, provocada pelo Sarcoptes scabiei var. canis, altamente contagiosa e responsável por coceira intensa, e a demodécica, provocada pelo Demodex canis, que não é contagiosa entre adultos e costuma sinalizar imunidade imatura ou comprometida. Em gatos, aparecem a notoédrica, causada pelo Notoedres cati, e a otodécica, causada pelo Otodectes cynotis, que é o ácaro de ouvido. O diagnóstico se apoia no raspado de pele e no exame clínico feitos pelo veterinário, porque os tipos se parecem por fora e pedem condutas opostas. O tratamento usa acaricidas de prescrição, hoje em geral as isoxazolinas orais, por semanas. A sarna sarcóptica é zoonose e pode causar lesões em pessoas da casa. Informação atualizada em agosto de 2026.
O que é sarna e por que existe mais de um tipo
Sarna é uma infestação da pele por ácaros, e o nome cobre doenças distintas porque as espécies envolvidas têm comportamentos próprios. Todas são invisíveis a olho nu e vivem sobre ou dentro da pele do animal. O que muda é onde elas se instalam, se transitam de um animal para outro com facilidade e se sobrevivem em outra espécie hospedeira.
Sarna também não é raridade em consultório brasileiro. Um levantamento publicado na Pesquisa Veterinária Brasileira acompanhou 480 cães atendidos em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, entre março de 2005 e junho de 2008 e catalogou os diagnósticos dermatológicos não tumorais. A sarna demodécica apareceu em 10,5% dos diagnósticos, em quarto lugar entre as dez dermatopatias mais comuns, e a sarna sarcóptica respondeu por 3,0%, na sexta posição. Somadas, as duas representaram 13,5% de tudo que foi diagnosticado. Os autores ainda observaram que a demodicose é bem mais frequente aqui do que em levantamentos norte-americanos e europeus, e associaram a diferença a práticas de criação que perpetuam linhagens suscetíveis.
Duas palavras do prontuário costumam confundir. Acariose é o termo técnico geral para infestação por ácaros. Escabiose serve tanto para a sarna sarcóptica animal quanto para a sarna humana, então "escabiose canina" significa sarna sarcóptica.
Sarna sarcóptica: a que mais coça e a que mais contagia
A sarna sarcóptica é a forma clássica, altamente contagiosa e responsável pela coceira mais intensa que um cão pode apresentar. Ela é causada pelo Sarcoptes scabiei var. canis, cuja fêmea escava túneis na camada superficial da pele para depositar ovos. Todo o ciclo de vida, de 17 a 21 dias, acontece sobre o animal, conforme descreve o MSD Veterinary Manual na sua página sobre sarna em cães e gatos.
A coceira não é proporcional ao número de ácaros: ela decorre de hipersensibilidade aos produtos do parasita. Por isso um cão pode ter pouquíssimos ácaros na pele e ainda assim se coçar até sangrar.
Os sinais mais típicos são:
- Coceira violenta e contínua, que não dá trégua nem à noite.
- Lesões nas bordas das orelhas, localização tão característica que o veterinário testa o reflexo otopodal, esfregando a borda da orelha para ver se o cão responde tentando se coçar com a pata traseira.
- Cotovelos, jarretes e barriga afetados, regiões de pele fina que costumam ser as primeiras a mostrar lesão.
- Pápulas e crostas amareladas espessas, com escoriações, vermelhidão e queda de pelo.
- Espessamento e escurecimento da pele nos casos arrastados por meses, com odor forte e infecção bacteriana secundária.
- Emagrecimento e apatia nos quadros graves.
O tempo entre o contato e o aparecimento dos sinais vai de 10 dias a 8 semanas, segundo o MSD Veterinary Manual, o que quase sempre desconecta a lesão atual do episódio que a originou.
A transmissão acontece por contato direto com outro animal infestado e, em menor grau, por objetos contaminados: camas, tapetes, coleiras e tosquiadeiras compartilhadas. Por isso a sarcóptica é comum em canis, abrigos e em cães com acesso à rua.
Quem tem gato e cão na mesma casa precisa de cuidado extra. O ácaro infesta sobretudo cães, mas o MSD Veterinary Manual registra que gatos em contato com cães infestados também podem adoecer. Tratar só o cão é uma falha frequente de manejo.
Sarna demodécica: quando o problema vem de dentro
A sarna demodécica funciona por uma lógica oposta à da sarcóptica. O Demodex canis vive normalmente nos folículos pilosos de cães saudáveis, em pequena quantidade, e a mãe o transmite aos filhotes durante a amamentação. A doença só aparece quando o sistema imunológico deixa de controlar essa população e o ácaro se multiplica sem freio.
A consequência é direta: a demodicose não é contagiosa entre cães adultos que convivem, e isolar o animal doente não faz sentido. O que importa é descobrir por que a imunidade daquele cão falhou.
O perfil dos casos confirma essa lógica. Um estudo da Pesquisa Veterinária Brasileira avaliou 46 cães com demodicose e encontrou 18 animais com a forma localizada (39,1%) e 28 com a forma generalizada (60,9%), com idade média de 23 meses e mediana de apenas 9 meses. Filhotes e cães jovens dominam a casuística porque a imunidade ainda está em maturação.
O mesmo trabalho registrou prurido em 54,3% dos animais, número que corrige um mito. A demodicose é descrita como pouco pruriginosa e realmente começa assim, mas mais da metade dos cães coçava, sobretudo porque a piodermite bacteriana secundária estava presente em 22 animais, quase todos com a forma generalizada. Quando a bactéria entra, a coceira aparece.
As duas apresentações se distinguem assim:
Demodicose localizada. Poucas áreas de falha de pelo, em geral até quatro ou cinco manchas, ao redor dos olhos, no focinho e nas patas dianteiras. Pele avermelhada, descamação fina, coceira discreta ou ausente. É a apresentação clássica do filhote, e boa parte dos casos se resolve conforme o sistema imune amadurece, o que não dispensa avaliação veterinária.
Demodicose generalizada. Lesões amplas, envolvendo grandes áreas do corpo ou as quatro patas, com pele espessada, crostas, pústulas, odor desagradável e infecção bacteriana associada. Em cães adultos que nunca tiveram o problema, é um sinal de alerta que costuma apontar para endocrinopatias, uso prolongado de corticoide, quimioterapia ou doença sistêmica.
Uma orientação vale para todo caso generalizado: cadelas afetadas não devem ser usadas em reprodução, porque a predisposição tem forte componente hereditário. O tema se conecta à discussão sobre castração de cães e gatos e o momento certo de fazer.
Sarna em gatos: notoédrica, otodécica e as confusões mais comuns
Gatos têm o seu próprio elenco de ácaros, e o mais grave é o Notoedres cati, causador da sarna notoédrica. Ela é o equivalente felino da sarcóptica: extremamente contagiosa entre gatos e muito pruriginosa. As lesões começam na borda das orelhas e na cabeça, com crostas espessas e cinzentas, e descem para o pescoço, as patas e a região perineal. A pele engrossa e forma pregas, o que dá ao animal um aspecto envelhecido característico.
A sarna otodécica, causada pelo Otodectes cynotis, é a mais comum das acarioses felinas e a que o tutor mais confunde com sujeira. O ácaro vive no conduto auditivo e produz um cerume escuro e granuloso, com aparência de borra de café. O gato balança a cabeça e coça as orelhas com força. Essa infestação é uma das principais causas de otite externa em gatos jovens, e o guia sobre otite em cães e gatos detalha os sinais que separam otite parasitária de otite por bactéria ou fungo.
Há ainda a queiletielose, apelidada de caspa que anda, causada pelo Cheyletiella: descamação intensa ao longo do dorso, em cães, gatos e coelhos.
A dificuldade em gatos é que quase tudo se manifesta do mesmo jeito. Gato que coça, se lambe demais e cria feridas no pescoço pode estar com sarna, com alergia à picada de pulga, com alergia ambiental ou com reação alimentar. Por isso a investigação precisa ser sequencial: o controle rigoroso de pulgas e carrapatos em cães e gatos costuma ser o primeiro passo, seguido pela avaliação de causas alimentares descrita no conteúdo sobre alergia alimentar em cães e gatos. Pular etapas faz o tratamento se arrastar por meses.
Doenças imunossupressoras também mudam a gravidade das acarioses. Gatos positivos para os vírus da imunodeficiência ou da leucemia felina tendem a desenvolver formas mais extensas e a responder pior, motivo pelo qual a testagem para FIV e FeLV em gatos entra na avaliação de um quadro de pele que não melhora.
Como o veterinário diagnostica a sarna
O diagnóstico da sarna se apoia no raspado de pele, e não existe substituto caseiro para esse exame. O procedimento é feito na própria consulta: o veterinário aplica óleo mineral sobre a lesão, raspa a pele até provocar leve sangramento capilar e examina o material ao microscópio, procurando ácaros, ovos e fezes.
A profundidade varia conforme a suspeita. Para Demodex, que vive dentro do folículo piloso, o raspado precisa ser profundo, com compressão da pele. Para Sarcoptes, que fica na superfície, o raspado é mais amplo e superficial, colhido em várias áreas.
Existe uma armadilha clássica aqui: o raspado negativo não descarta sarna sarcóptica. Como a coceira decorre de hipersensibilidade e não da quantidade de ácaros, é comum não encontrar parasita em um cão claramente infestado. Por isso o veterinário muitas vezes decide tratar com base no conjunto clínico, ou seja, sinais compatíveis, reflexo otopodal positivo, histórico de contato e outros animais coçando na mesma casa. Esse tratamento diagnóstico é conduta aceita.
Outros exames podem entrar conforme o caso:
- Tricograma, exame dos pelos ao microscópio, que às vezes revela Demodex preso à raiz.
- Fita adesiva e citologia, para identificar bactérias e leveduras associadas.
- Otoscopia e swab auricular, que permitem visualizar o Otodectes.
- Biópsia de pele, reservada para casos atípicos ou refratários.
- Exames de sangue e avaliação endócrina, obrigatórios em demodicose generalizada de cão adulto.
O diagnóstico diferencial é extenso: dermatite alérgica à picada de pulga, atopia, alergia alimentar, dermatofitose e foliculite bacteriana produzem quadros semelhantes. Em gatos entra ainda a esporotricose felina, confundida com sarna nas fases iniciais, embora exija tratamento antifúngico completamente diferente.
Tratamento da sarna: o que funciona e o que piora
O tratamento usa acaricidas de prescrição veterinária, e os medicamentos disponíveis hoje são bem mais eficazes e seguros do que os de duas décadas atrás. A classe das isoxazolinas, administrada por via oral e já familiar aos tutores como antipulgas, mostrou alta eficácia contra ácaros de sarna e virou escolha frequente na clínica brasileira. Dose, intervalo e duração são definidos pelo veterinário conforme espécie, peso e tipo de sarna.
Quatro princípios organizam o tratamento, qualquer que seja o medicamento escolhido.
A duração é maior do que a melhora aparente. As lesões fecham e o pelo volta a crescer antes de o ácaro ser eliminado. Interromper nesse ponto é a causa mais comum de recidiva. Em demodicose generalizada, a regra é manter a medicação até obter dois raspados negativos consecutivos e ainda seguir além disso.
A infecção secundária é tratada em paralelo. Boa parte do que o tutor vê, crosta, pus, odor e vermelhidão, vem da bactéria instalada na pele lesionada, e não do ácaro. Antibiótico sistêmico e banhos com xampu antisséptico prescrito entram no protocolo em muitos casos.
Na sarcóptica, todos os contactantes são tratados. Tratar um cão e deixar os outros animais sem cobertura garante reinfestação em poucos dias. Camas, tapetes e coleiras precisam ser lavados e, quando possível, secados ao sol.
Na demodicose, a causa de base tem que ser investigada. Tratar o ácaro sem descobrir por que a imunidade falhou funciona por um tempo e depois o quadro volta. Em cão adulto, essa investigação não é opcional.
Do outro lado estão as práticas que machucam o animal. Óleo queimado de motor, creolina, querosene, enxofre agrícola e produtos formulados para bovinos causam queimadura química, dermatite de contato e intoxicação, às vezes com dano hepático e renal. Medicamentos à base de ivermectina exigem cuidado redobrado em raças com a mutação do gene MDR1, como Collie, Border Collie, Pastor Australiano e Pastor de Shetland, nas quais doses convencionais podem gerar quadro neurológico grave. Nada disso deve ser usado sem prescrição, e o Conselho Federal de Medicina Veterinária é a referência sobre quem está habilitado a prescrever no país.
Corticoide é o erro mais sedutor. Reduz a coceira rapidamente e dá impressão de melhora, mas suprime a resposta imune, que na demodicose é justamente o que se precisa preservar.
A nutrição sustenta a recuperação da pele e do pelo. Proteína de boa qualidade, ácidos graxos essenciais e zinco participam da renovação cutânea, e um animal que passou semanas coçando chega debilitado. Nenhuma ração trata sarna, mas escolher bem o alimento ajuda, e os critérios estão no guia sobre como escolher a ração do cachorro.
A sarna do cachorro passa para o ser humano?
A sarna sarcóptica passa para pessoas, e essa é a informação que mais precisa ficar clara para quem tem um animal infestado em casa. O Sarcoptes scabiei var. canis penetra na pele humana e provoca lesões, embora não complete o ciclo reprodutivo no hospedeiro errado. O resultado é coceira e pápulas avermelhadas nos braços, no abdômen e nas coxas, as áreas que encostam no animal quando ele é carregado no colo.
A dimensão do risco foi documentada em um estudo brasileiro clássico da Revista de Saúde Pública, que acompanhou 143 pessoas expostas a 27 cães com sarna sarcóptica e encontrou lesões cutâneas sugestivas de escabiose em 58 delas, ou 40,56% dos expostos. Os autores registraram maior incidência em mulheres e observaram que pessoas de todas as idades foram atingidas. O mesmo trabalho mostrou como a confirmação laboratorial é difícil: o agente foi identificado em apenas 3 das 12 pessoas submetidas a raspado cutâneo.
A lesão humana por ácaro de cão costuma ser autolimitada, regredindo algumas semanas depois que o animal é tratado, e não há transmissão de pessoa para pessoa, porque o parasita não se estabelece de forma duradoura na pele humana.
A sarna humana clássica é outra doença, causada pelo Sarcoptes scabiei var. hominis e transmitida por contato pele a pele prolongado entre pessoas ou por roupas contaminadas. A Nota Técnica sobre Escabiose da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás descreve sintomas que começam de 4 a 6 semanas após a infestação, com prurido intenso, pápulas, vesículas e cavidades lineares esbranquiçadas correspondentes ao trajeto do ácaro, e indica tratamento com permetrina a 5% para maiores de 2 meses. Esse tratamento é de indicação médica e não deve ser improvisado a partir de produtos veterinários. Se o cão foi diagnosticado e alguém da casa começou a coçar, procure atendimento e informe o diagnóstico do animal.
A demodicose canina, por outro lado, não é transmissível ao ser humano, porque o Demodex canis é específico do cão. Já a sarna notoédrica dos gatos e a queiletielose podem causar lesões transitórias em pessoas, pelo mesmo mecanismo da sarcóptica.
Como prevenir a sarna em cães e gatos
Não existe vacina contra sarna, e a prevenção depende de manejo, o que é uma vantagem, porque as medidas estão ao alcance de qualquer tutor.
O controle antiparasitário regular é a proteção mais consistente. Vários produtos de uso mensal ou trimestral prescritos para pulgas e carrapatos têm espectro que inclui ácaros de sarna. Manter esse controle em dia, junto com a vermifugação de cães e gatos e o calendário de vacinação de cães e gatos, forma a base da saúde preventiva.
Evitar contato com animais doentes corta a via principal. Acesso livre à rua e locais com muitos cães sem controle sanitário aumentam o risco. Em gatos, viver dentro de casa com janelas e sacadas teladas reduz drasticamente a exposição.
Higiene de ambiente e de utensílios importa. Lavar camas e brinquedos de tecido em água quente, desinfetar caixas de transporte e não compartilhar escovas, tosquiadeiras e coleiras interrompe a transmissão indireta.
Todo animal novo passa por quarentena. Filhote adotado, resgate de rua ou animal vindo de canil deve ser avaliado pelo veterinário e mantido separado dos residentes por alguns dias. Como a incubação da sarcóptica chega a oito semanas, um animal aparentemente saudável pode já estar infestado.
Sustentar a imunidade previne a demodicose. Alimentação adequada à fase de vida, controle de peso, tratamento de doenças crônicas e uso criterioso de corticoides mantêm o Demodex sob controle natural. O excesso de peso agrava qualquer quadro de pele, e o conteúdo sobre obesidade em cães e gatos e como prevenir traz os parâmetros para acompanhar isso em casa.
Inspecionar a pele faz parte da rotina. Passar a mão contra o sentido do pelo uma vez por semana e olhar bordas das orelhas, cotovelos, barriga e base da cauda resolve um problema pequeno antes que ele vire generalizado. Sarna diagnosticada na primeira semana custa uma consulta e algumas doses de medicamento. Sarna diagnosticada no terceiro mês custa meses de tratamento, antibiótico, exames e uma casa inteira coçando.
Perguntas frequentes
Sarna em cachorro passa para humano?
A sarna sarcóptica, causada pelo Sarcoptes scabiei var. canis, passa para pessoas e provoca coceira e pápulas avermelhadas nos braços, no abdômen e nas coxas. Um estudo da Revista de Saúde Pública observou lesões sugestivas de escabiose em 58 de 143 pessoas expostas a cães infestados, o equivalente a 40,56%. As lesões humanas costumam ser autolimitadas e regridem quando o animal é tratado, porque o ácaro do cão não completa o ciclo na pele humana. Já a demodécica, causada pelo Demodex canis, não é transmissível ao ser humano. Se alguém da casa começar a coçar, procure atendimento médico e informe o diagnóstico do animal.
Qual a diferença entre sarna sarcóptica e demodécica?
São doenças distintas com ácaros distintos. A sarcóptica é altamente contagiosa entre animais, passa para pessoas, provoca coceira violenta e afeta bordas das orelhas, cotovelos, jarretes e barriga. A demodécica vem de um ácaro que já vive na pele do cão e só adoece quando a imunidade falha, portanto não é contagiosa entre adultos, começa com pouca coceira e aparece em filhotes como manchas sem pelo ao redor dos olhos e no focinho. A diferença prática está na conduta: na sarcóptica todos os animais da casa entram no tratamento, e na demodécica generalizada é preciso investigar a doença de base.
Como saber se meu cachorro está com sarna?
Não é possível confirmar em casa, porque o ácaro é microscópico e as lesões se parecem com alergia, dermatofitose e infecção bacteriana. Os sinais de suspeita são coceira intensa e persistente, falhas de pelo em placas, crostas nas bordas das orelhas, vermelhidão nos cotovelos e na barriga e pele espessada. Outro indício forte é mais de um animal da casa coçando ao mesmo tempo, ou alguém da família com pápulas nos braços. A confirmação vem do raspado de pele feito pelo veterinário, e um raspado negativo não descarta a sarna sarcóptica.
Existe remédio caseiro para sarna?
Não existe tratamento caseiro eficaz, e as receitas populares mais difundidas são perigosas. Óleo queimado, creolina, querosene, enxofre agrícola e produtos formulados para bovinos causam queimadura química, dermatite de contato e intoxicação, e podem provocar dano hepático e renal. Além do risco direto, atrasam o diagnóstico. O tratamento eficaz usa acaricidas de prescrição veterinária, com destaque para as isoxazolinas orais, associados quando necessário a antibiótico e a banhos com xampu antisséptico. A prescrição depende da espécie, do peso, do tipo de sarna e da raça, já que alguns antiparasitários são contraindicados em cães com mutação do gene MDR1.
Quanto tempo demora para curar a sarna?
Depende do tipo e da extensão. A sarna sarcóptica costuma responder em poucas semanas, com melhora da coceira já nos primeiros dias, embora o protocolo completo e o tratamento dos contactantes se estendam por mais tempo. A demodicose localizada de filhote muitas vezes se resolve em algumas semanas, às vezes de forma espontânea. Já a generalizada exige meses, e a regra usada na clínica é manter a medicação até obter dois raspados negativos consecutivos e ainda seguir além disso. O erro mais comum é interromper quando o pelo volta a crescer, porque pele recuperada não significa ácaro eliminado. Informação atualizada em agosto de 2026.
Fontes
- Prevalência das dermatopatias não-tumorais em cães do município de Santa Maria, Rio Grande do Sul (2005-2008) . Pesquisa Veterinária Brasileira (SciELO) (2009)
- Aspectos clínicos e histológicos da demodicose canina localizada e generalizada . Pesquisa Veterinária Brasileira (SciELO) (2018)
- Evidências epidemiológicas da ocorrência de escabiose, em humanos, causada pelo Sarcoptes scabiei var. canis . Revista de Saúde Pública (SciELO) (1978)
- Mange in Dogs and Cats . MSD Veterinary Manual
- Mite Infestation (Mange, Acariasis, Scabies) of Cats . MSD Veterinary Manual
- Nota Técnica sobre Escabiose . Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (2025)
- Conselho Federal de Medicina Veterinária . CFMV